Los Angeles no futuro de 2019. Luzes de neon. Decadência. Umidade.
Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford, é um Blade Runner, um policial especializado em caçar replicantes, que são humanos artificiais, quase indistinguíveis dos reais, contudo possuem memória implantada e vivem apenas quatro anos, característica colocada como forma de controlá-los. Fabricados pela poderosa Corporação Tyrell e tratados como escravos pela sua capacidade física, foram banidos para colônias extraterrestres e relegados a trabalhos como mineração ou prostituição.
Deckard está aposentado, mas aceita o trabalho de procurar quatro replicantes rebeldes soltos por Los Angeles: Pris (Daryl Hannah), Zhora (Joanna Cassidy), Leon Kowalski (Brion James), e seu líder Roy Batty (Rutger Hauer)
Enquanto investiga e “aposenta” os fugitivos, Deckard começa compreender que os desejos e emoções que motivaram o replicantes são muito parecidos com os seus próprios.
Liderados por Batty, os replicantes desejam mais vida e invadem a Corporação Tyrell para pedir ao seu criador que lhes conceda uma extensão, na esperança de driblar a morte e suas limitações. Em uma batalha com Batty, clímax do filme, Deckard percebe que seu próprio desejo de sobrevivência não é diferente daquele dos replicantes que aposentou.
Apesar do cenário futurista, do suspense investigativo e do estilo de filmes noir dos anos 40,que combinaram muito bem, o diretor Ridley Scott trouxe um filme atemporal, com uma complexidade temática questionando a natureza da memória, identidade, condição humana, existência e morte. A cena em que Rachael, uma replicante que não consegue acreditar que não é humana realiza um teste Voight-Kampff é uma das mais emocionantes e demonstra o questionamento do filme. Rachael é assistente de Tyrell e possui a memória de sua sobrinha, motivo pelo qual é difícil convencê-la de que é uma replicante.
Rachael é interpretada por Sean Young, atriz de beleza diferente, altamente cotada na época, antes de destruir sua carreira pela arrogância e difícil trato em sets de filmagens.
Além de ser um filme a ser apreciado com uma visão questionadora, não somente ‘assistido’, telespectadores podem estranhar um Harrison Ford fora daquilo que costumamos conhecer, sempre ativo e dinâmico, interpretando um personagem quase inanimado, e um desenrolar da trama um pouco lenta. Ambos os fatos são intencionais, demonstrando ao longo dos acontecimentos, que os humanos passaram a adquirir características androides e estes, por sua vez, adquiriram características humanas.
Feito anos antes dos efeitos digitais tornarem-se comuns, o espetáculo visual impressiona e continua influenciando a indústria de filmes e games. Na época do lançamento, Blade Runner foi muito criticado por falhas de lógica, final meloso e uma dublagem lamentável da voz de Harrison Ford. Mais tarde, com a versão do diretor, cenas foram recolocadas, o final alterado e a dublagem eliminada. Além disso, houve uma sugestão de que Deckard era também um replicante, o que acrescentou mais ironia e discussão sobre o filme.
Poucos filmes de ficção científica foram tão analisados e debatidos como Blade Runner. Através dos olhos de Deckard, o filme ilustra como memória, desejos e emoções formam o consciente, e como a necessidade de extrapolar nossos confinamentos espirituais e físicos nos define como humanos